Liberdade, Metamoralidade & Progressofobia

Escrito em cerca de 06 meses, marca o debut do autor. Em verdade, Alexandre escreve desde os 15 anos de idade, mas interrompeu sua carreira por motivos variados: desde o início de sua sólida carreira jurídica, até uma tragédia pessoal: sua avó, influenciadora, revisora e primeira leitora, tirou sua própria vida assim que o autor terminou seu único romance: uma trilogia que está a caminho de se tornar pública. Mas voltemos ao debut: Gossn estudava à época 03 temas de forma separada, quando observou que se interpenetravam. Quando o ser humano decidiu que deveria ser livre? A liberdade é um conceito meramente abstrato ou pode ser concretizada a partir de um feixe de direitos reconhecidos? E a igualdade? Como ficaria nisso? Parece óbvio para cidadãos modernos que cada indivíduo deve ser livre e toda a sociedade deve ser o mais igualitária possível, mas até 300 anos atrás, essa não era uma verdade autoevidenciável.

Como Gossn explicita a partir da obra monumental de Lynn Hunt, os direitos à liberdade e igualdade tiveram que ser arrancados de uma elite dominante à forceps. Alexandre mergulha fundo na aspiração por liberdade e demonstra como liberdades individuais e coletivas podem andar lado a lado, ou a menos deveriam. O texto aponta ainda como a liberdade tem fim em si mesma e não é mera categoria instrumental, sendo que suas versões políticas e econômicas resvalam na projeção das nações, traçando um paralelo interessante com a obra do biólogo Jared Diamond. No segundo tema, a moralidade, Gossn reflete que o ser humano é uma criatura moral porque a evolução assim o selecionou. A moralidade é, portanto, fruto da evolução da espécie. Mas, para além dessa conclusão, o autor pondera que o tipo de moralidade selecionada foi uma específica: a moralidade tribal. Ocorre que essa moralidade serviu bem à humanidade por dois milhões de anos, mas deixamos de viver em tribos. O que fazer com uma ferramenta afiada para ser utilizada em grupos pequenos, quando agora a sociedade vive em grupos contados aos milhões? Como superar as contradições e perigos da moralidade segregacionista e cujo imperativo era proteger a tribo, quando adentramos a uma era globalizada? O autor reconhece que as soluções para os problemas futuros não pode mais passar pela unilateralidade, devendo advir de consensos multilaterais. A resposta ao problema: o surgimento de um upgrade na moral humana: a metamoralidade. Será uma evolução, um passo adiante, um degrau escalado.

Mas, como o autor enfrenta no capítulo final, essa escalada tecnológica dos últimos 300 anos é fruto de uma era progressomaníaca. Contudo, como revela a física newtoniana, para toda ação há uma reação e à progressomania, se contrapôs sua nemêsis, sua contraparte: a progressofobia. Rapidamente, grande parte das pessoas passou a dar as costas aos enormes avanços civilizatórios recém-conquistados: saneamento básico, vacinas, antibióticos e outras grandes conquistas passaram a ser tratadas como ameaças. Por quê? Que dinâmica está por trás da rebeldia com o progresso? Por que a fobia justamente com as melhorias que tem permitido à humanidade ter melhorado? Lastreando suas conclusões em dados científicos, confessadamente inspirado em Joshua Greene, Michael Sandel, Jared Diamond, Steve Pinker, Yuval Harari e Steven Radelet, Gossn conclui que os 03 temas estão umbilicalmente ligados: ansiamos por milênios ser livres, mas tememos a liberdade. Levamos milhões de anos para nos tornarmos morais, mas precisamos agora nos livrar de uma moralidade tribal que se tornou uma roupa justa em um corpo que se expande. Progredimos de forma inédita nos 03 últimos séculos, mas tememos perder a nossa essência humana. Haverá um pós -humano? Um além do sapiens? Tememos mudar e deixar de ser quem pensamos ser: mas como Dominique Lecourt indaga em sua obra sobre a pós-humanidade: será que realmente temos uma essência ou ela está em constante mutação? Pela abordagem transdisciplinar e trafegar entre o fluxo de dados concretos e a sondagem de questões imateriais, Alexandre apresenta uma obra audaciosa, que se ainda não lhe revela o autor maduro que se tornaria, demonstra claramente que sua visão do cosmos está longe de ser convencional e unidimensional.

STEPHANY LEAL – Produtora.

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