Amigos: pensem em artistas e pensadores que tenham vivido ou vivenciado de alguma forma o período que vai de 1914 (ano em que começou a primeira guerra mundial) a 1945 (ano em que termina a segunda guerra mundial): Freud, Orwell, Picasso, Reich, Adorno, Ortega y Gasset, Arendt, Jung e muitos outros.

Em todos estas pessoas, em algum grau, há de encontrar um traço de pessimismo ou ao mínimo, denso realismo ao analisar a obra que legaram ao mundo.

Com o artista belga René Magritte, supra sumo do surrealismo belga não seria diferente.

Desde o começo da carreira, o pintor belga desconfiou do modernismo e da ideia de que há em curso um progresso inevitável que garante um avanço moral da humanidade (esta, uma ideia que pode ou não ser marxista conforme a forma que é elocubrada).

E as duas grandes guerras que marcaram o séc. XX reforçaram a impressão ruim que Magritte tinha do que alguns chamam de progresso. Em 1948, Magritte apresenta ao mundo o quadro LA FAMINE, ou A FOME, uma pintura (da foto) em que as pessoas (cidadãos) literalmente comem umas às outras, evocando em parte o zeitgeist da sua época (apenas três anos após o fim da segunda guerra e o pessimismo decorrente de tal mortandade), e por outro lado, reforçando a tendência que a alma humana tem à ganância e à maldição de Erisiquitão (uma fome que leva o faminto a comer tudo, inclusive a si mesmo, segundo a mitologia grega).

O fato, amigos, é que como profere o ditado alemão, é muito raro a maçã cair longe do pé, e assim, é muito incomum um ser humano produzir expressão de pensamento distante das impressões que o seu tempo lhe causou.

Vivemos uma era de ilusão de individualismo e independência, como se o ser humano lograsse existir, pensar, sentir e se expressar sem integrar uma enorme e rica teia de vivências, contatos, influências e condicionamentos.

Essa é a religião do séc. XXI: a ilusão de que a individualidade nos permite sermos algo ou alguém que pode se apartar da interdependência. Mera ilusão.

Se não nos relacionamos para cooperar, tendemos a nos relacionar para nos devorarmos como ensina o mito de Erisiquitão e a obra de Magritte.