Daniel Innenarity, filósofo basco (que é meu pensador de cabeceira há meses) tem alertado que escolhemos viver a era da política para PERPLEXOS ou a política em TEMPOS DE INDIGNAÇÃO.

Não desejamos mais ouvir e nem ao menos convencer uns aos outros.

Não almejamos sequer derrotar os outros: ansiamos os destruir.

Não foi apenas Shinzo Abe que foi alvejado pelas costas, mas a própria democracia. Vinculamos inicialmente nosso compromisso democrático com performance econômica. Ou seja, sempre que a economia patina, nos voltamos a líderes autoritários que propõem atalhos à democracia.

Entramos em uma fase de mais deterioração: agora nao precisamos nem mesmo de crises econômicas para abrir mão da democracia; topamos renunciar aos direitos democráticos sempre que for possível alijar os “diferentes” ou adversários.

A democracia não é um amontoado de regras em constituições e leis, e muito menos monumentos ou palácios, mas sim o NOSSO COMPROMISSO EM ACEITARMOS PERDER NAS URNAS e sermos governados por aqueles de quem discordamos.

E esse compromisso se assenta (e é reforçado) pela certeza de que podemos vencer o pleito eleitoral seguinte e nossos oponentes aceitarão (como aceitamos) a voz das urnas. A democracia pressupõe que a derrota seja tão legítima quanto a vitória.

Não é o que estamos vivenciando e assistindo, seja nos EUA, Japão ou Brasil.

O covarde assassinato de Shinzo Abe é o exemplo mais bem acabado do precipício em que a democracia (no mundo) está encostada e prestes a se lançar (por conta própria!). Esta trágica morte pode ser em vão e o início do fim ou pedagógica do ponto de vista político. Depende de nós.