Nós brasileiros, como os russos, chineses e norte-americanos somos povos autocentrados em maior ou menor grau, e parte deste emsimesmamento decorre da geografia: vivemos em países com territórios gigantescos.

Essa dinâmica fica muito clara quando você visita, vive e convive com cidadãos de países menores como Áustria, Suíça, Portugal ou Bélgica.

Por conta deste modus vivendi em torno do próprio umbigo, o Brasil em geral sabe menos de países com os quais têm enorme ligação do que estes países sabem sobre o Brasil.

Se este fenômeno é verdadeiro para Portugal, ele salta ainda mais para o que não sabemos sobre Angola, país com o qual estamos inextrincavelmente conectados. Moleque, bunda, samba, birita, axé, caçula, cafuné… São tantas palavras angolanas que usamos (a maioria do idioma banto) que podemos dizer que somos tão angolanos quanto portugueses e indígenas para sermos brasileiros.

Na peça Conexão Luanda Recife que assisti no teatro de bolso da @ucoimbra antes de ontem, Jorgette Dumby e Carol Braga (@carolbraga_), angolana e pernambucana

respectivamente, são as atrizes que oferecem uma performance que mostra como Angola foi parar na América, seja na forma do frevo, maracatu, samba etc do Brasil até o gospel e músicas de New Orleans dos EUA.

Ao mesmo tempo, revelam como a ferida colonial se faz presente, a partir do carregamento de mais de 10 milhões de seres humanos em naus que eram verdadeiras tumbas sobre o Atlântico, passando por temas contemporâneos como o avô de Elon Musk e a origem escravagista de sua fortuna sob a exploração de minas de pedras preciosas e africanos sob o regime do Apartheid.

Emocionante e doloroso.