01. A guerra da Ucrânia migrou claramente para uma nova fase, onde fazer Kiev e Zelensky cair não são mais objetivos factíveis para a Rússia, dado o armamento constante que os ucranianos têm recebido dos EUA e Otan.

02. Embora não declarado publicamente, o objetivo primordial que a Rússia parece ter assumido neste novo estágio é obter uma secção permanente de Donbass e Crimeia, instituindo na região um território autônomo onde o idioma russo e a moeda russa (rublo) serão oficializados.

03. O provável passo seguinte seria a realização de um plebiscito / referendo para anexar esta região à Federação russa, se assim entender pertinente o governo de Moscou. É possível que a manutenção de um Estado tampão funcione melhor como um amortecedor geográfico.

04. Um eventual acordo neste momento passaria pela Ucrânia aceitar eventual perda destes territórios,ou seja, assumir que terá sua geografia política amputada e retalhada. Por outro lado, Zelensky não foi derrubado e poderia demonstrar que a Ucrânia manteve sua soberania.

05. Qualquer acordo de paz neste estágio em que não há um vencedor claro passa pela possibilidade que ambos contendores ofereçam-se reciprocamente a possibilidade de não serem tratados pelas suas populações como derrotados.

06. A toxicidade econômica das SANÇÕES sobre a Rússia para os próprios sancionadores (efeito boomerang) é um dos pontos que induz que um acordo seja alcançado, pois os efeitos econômicos da Guerra por ora ainda são mais sentidos no teatro do combate.

07. Mas estes efeitos econômicos não desejados já estão fermentando em outros países, e não só na Europa, mas também na África e América do Sul. Em congresso Sino Lusofono tratamos deste tema na Universidade de Coimbra esta semana.

08. Estes efeitos econômicos devastadores a médio e longo prazo não se dão pelo tamanho (nada grande) das economias da Rússia ou Ucrânia, mas sim, pela posição que ambas nações eslavas ocupam na cadeia logística da produção econômica em uma sociedade tão globalizada como a nossa.

09. Moscou & Kiev são responsáveis por uma miríade de commodities, tanto alimentícias como energéticas, constituindo o passo inicial de qualquer cadeia econômica. Ambos países podem não ter PIBs tão representativos, mas dão o “start” a grande parte da economia global.

10. Com a redução dos índices de contaminação na Pandemia e mitigação de Lockdowns, após toda a retração econômica vivida em 2020 e começo de recuperação em 2021, a tendência era que 2022 e especialmente 2023 fossem anos de enorme crescimento econômico.

11. Esta tendência está relevantemente revertida para 2022 e assustadoramente comprometida para 2023. A tendência é que o hecatombe das economias russa e ucraniana se espraiem e atinjam em cheio todos os países da U.E e muitos países da África e América do Sul.

12. As conclusões do Congresso Sino Lusofono são aterradoras no caso de uma solução de paz não ser rapidamente encontrada. Isto porque não se trata de salvar a economia por questões meramente materiais…

13. Tais receios se justificam porque penúrias econômicas quase sempre desaguam em instabilidades políticas e tendências populistas. Justamente no momento de MAIOR RETROCESSO DEMOCRÁTICO do mundo desde a QUEDA DO MURO DE BERLIM.

14. Este primeiro 1/5 do século XXI começou de forma terrivelmente instável e sequer iniciamos o enfrentamento das mudanças climáticas que ainda não estão em seu ponto mais grave. Pensem comigo: se a adoção de soluções multilaterais já era difícil…

15. Imaginem coordenar o enfrentamento da crise climática / ambiental em um ambiente de populismo, desconfiança generalizada, crise econômica, crise política, crise energética e guerra.

O multilateralismo sofre seguidos golpes em 2022.