Jair Bolsonaro costuma recorrer à sua tentativa de assassinato pelo inimputável Adélio como um complô comunista.

A PF investigou em busca de evidências de que o citado sujeito seja a ponta de um iceberg imenso, mas nunca encontrou nada maior que a própria loucura de Adélio e a vontade do presidente em distorcer a realidade como melhor lhe apetece.

Mas essa estratégia não tem nada de nova.

Em 27/02/1933, um jovem holandês chamado Marinus Van der Lubbe achou que era uma boa ideia incendiar o prédio do Reichtag, aqui em Berlim, onde era (e ainda é) sediado o parlamento alemão.

Com as investigações apontando que Lubbe fora o mentor e único autor, o chanceler recém nomeado Adolf Hitler não aprovou o resultado da investigação.

Se a verdade não bastava, era preciso mudá-la. Assim, entregou (e a imprensa abraçou, frise-se!) à população a narrativa de que um complô comunista almejando dissolver o poder legislativo e dar um golpe no Executivo planejou e executou o incêndio. Diversos cartazes (vide foto) foram espalhados por Berlim com essa narrativa como se ela fosse verdade.

Um resumo a jato da História: um dia após o incêndio, o presidente Von Hindenburg (Hitler ainda era só Chanceler) assinaria o Decreto do Presidente do Reich para a proteção do povo e do Estado, que eliminava diversas garantias fundamentais da República de Weimar, como sigilo de correspondência, a liberdade de opinião, imprensa e direito de reuniões.

Sob aplausos de pessoas desorientadas, as forças de Estado prenderam políticos opositores e iniciaram as perseguições que desaguariam nas fotos finais do carrossel: a humilhação pública de professores não nazistas com asnos, o vilipêndio de mulheres “arianas” que se relacionaram com judeus ou lésbicas e a perseguição incessante dos judeus até os campos de concentração.

Como bem recorda Yuval Harari, o poder é como a gravidade e pode tentar distorcer a verdade. O poder absoluto pode tentar destruir a verdade.

Por isso, nestes tempos cinzentos para a democracia brasileira, a decisão do STF em banir o Telegram até que este se adeque às normas civilizacionais mínimas se mostra acertada.