Em 1995, o já genial e querido ranzinza José Saramago (naquela época, não tão premiado), escritor português de maior prestígio dos últimos 50 anos, lançou uma obra distópica que rende incontáveis interpretações.

Ora emula o mito da caverna platônico (afinal, o sábio é sempre solitário e a verdade morre com ele?), ora atualiza o embate titânico entre Hobbes e Rousseau (o homem é mau ou bom por natureza?) e a todo tempo nos deixa desconfortáveis com a leitura.

Saramago, mais que genial escritor, era um precioso anatomista da alma humana e antecipou em 19 anos o que outro arguto analista da civilização observaria: excesso de luz pode cegar.

Byung-Chul Han, sul coreano radicado na Alemanha, filósofo e sociólogo, docente na Universidade de Artes de Berlim, lançaria em 2014 seu conciso, porém doloroso A SOCIEDADE DA TRANSPARÊNCIA.

O ensaio une o antagonismo de ser tão breve quão profundo, e tão incômodo quanto verdadeiro. Em uma sociedade que tudo pode ver, em que tudo são luzes e tentar iluminar-se tudo, surge a morte do contraste.

E sem contraste, o ser humano pode ver, mas não enxerga, pode assistir mas não compreender, pode estar submerso mas não pertencer. Onde tudo são luzes, a claridade ofusca, fere, cega. Onde todos querem serem vistos, não haverá ninguém para assistir.

Tal como a cegueira branca e leitosa de Saramago, decorrente do excesso neoliberal, da profusão de desejos e ânsias, a Sociedade de Transparência se esvai na promessa de mais liberdade e se encerra na escravidão de ser obrigado a ser livre.

Se Saramago enxergou o início da crise e da doença social, Chul Han assistiu a morte e o sepultamento da instrospecção e da capacidade reflexiva de um tipo de civilização.

Faço este paralelo com uma experiência que o Museu @maatmuseum
Realiza em Lisboa #lisboa #maat

Nela, você é perseguido por um canhão de luz sem quer possa fugir (vídeo no Feed). A luz não descansa em cair sobre ti. Se deres um ou dez passos, ela lhe persegue. Se parares, ela estanca. Descansar, refletir… Se deixar na sombra já não é possível.

Não estaremos todos reféns da luz?