Com o aniversário da desintegração da União Soviética, temos mais uma oportunidade para refletir sobre o que sabemos, o que não sabemos e o que é fruto de colonização cultural mas pensamos serem fatos sobre nosso conhecimento sobre o tema.

O dito Ocidente sempre teve dois pés atrás com o dito Oriente, e neste olhar de soslaio sempre enfiou a Rússia neste balaio de gato onde ainda cabem o Oriente Médio, o Japão e a China.

O intelectual palestino Edward Said traduz muitíssimo bem esta visão monolítica em seu bem cunhado termo: orientalismos.

Tínhamos receio da mãe Rússia Czarista, um Império Agrário, mas ainda assim colossal e capaz de desequilibrar batalhas mundiais como visto na primeira Guerra Mundial (1914-1918), até que a revolução (1917) a retirasse do campo de batalha.

Passamos a temer o poderio dos “soviets” e até hoje somos injustos ao declararmos que EUA, Reino Unido e França venceram Hitler, quando em verdade, ninguém se sacrificou, matou e morreu mais que os soviéticos. O dia D na Normandia foi um piquenique se comparado a Stalingrado.

E hoje, mesmo diante uma Rússia muito mais enfraquecida militar e economicamente, prosseguimos tendo medo de Putin e Cia, tratando a Otan como equipe de mocinhos e os russos como malvados.

A realidade é bem mais complexa que isso. Como brasileiros e europeus ocidentais altamente colonizados culturalmente pela “América”, achamos justo os EUA chiarem com uma Cuba alinhada a inimigos no “quintal de casa”, mas não damos a reciprocidade à Rússia sentir o mesmo com uma Ucrânia a ser recheada de bases militares e lançadores de mísseis da OTAN.

Também não achamos escandaloso que os EUA tentem sabotar iniciativas como os gasodutos russos que abasteceriam a Europa e em muito ajudariam a redução de danos ambientais.

Sim, o regime russo não é exatamente um amigo dos direitos humanos. Sim, há falta de transparência e a democracia na Rússia parece carcomida pelo Executivo.

Mas passou da hora de nós questionarmos também quanto às violações de direitos humanos praticadas pelas democracias, das quais o maior exemplo são os EUA.