Em uma era de mimados como nós, a pandemia tem se revelado um desafio maratonista.

Também pudera: não enfrentamos guerras como nossos bisavós ou avós, não apanhamos da ditadura (salvo os mais velhos), não enfrentamos a gripe espanhola sem vacinas, não tivemos que enfrentar um apartheid oficial etc.

De verdade: não temos mais nem que levantar da poltrona para trocar o canal da tv.

Forjados no conforto do streaming, ladeados de almofadas, engordados pelos ifoods da vida … Não sei mesmo porque esperar que tivéssemos nos comportados com resiliência nos Lockdowns da vida.

Claro que não falo dos desempregados, dos falidos, de quem usa transporte público ou divide um teto com mais 07, 08 pessoas.

Falo de quem podendo, não fez isolamento. De quem devendo, não usou máscara. De quem podendo doar dinheiro ou comida, não doou nada a não ser ódio, ócio ou coceira na barriga.

Falo de quem fez campanha contra a ciência, o jornalismo, e até amaldiçoou as vacinas que estão nos tirando desta ratoeira patogênica.

Hoje recebi a minha segunda dose: fui a pé em parte do percurso, me molhei de chuva na volta e novamente, senti gratidão.

Perdi amigos que não puderam tomar nem a primeira dose, outros que morreram antes das vacinas serem desenvolvidas e tenho outros tantos sequelados.

Minha família não passou nada disso, mas isso não me torna imune. A nossa família não pode se restringir a 10, 12 pessoas, quando mais de meio milhão de almas partiu.

Destas quase 600.000 vidas perdidas, seguramente 420.000 teriam sido poupadas se a autoridade (todos sabem quem) tivesse respondido um dos setenta e tantos emails de um certo laboratório.

Não tenho crenças sobrenaturais, mas sou grato ainda assim. À vida, aos profissionais de saúde, à Ciência e a à maioria da sociedade que não se deixou abater pela doença do negacionismo. Sou grato a cada laboratório que produz vacinas, porque a imunização é um esforço hercúleo e conjunto.

Obrigado, SUS, já fui tão injusto contigo, e foi necessário que uma Pandemia mostrasse o que na vida é elementar e o que não passa de tirania politiqueira.