A ideia para as vacinas deve ter surgido na China durante os séculos XVII e XVIII, quando pessoas que lá estiveram reportaram que os chineses exprimiam o material das pústulas da varíola, transformavam-no em pós e sopravam nas narinas das pessoas sadias para que se imunizassem. Naquela época, a varíola matava quase 1/2 dos acometidos, deixava cerca de 03/04 com cicatrizes eternas e mais um número imenso de cegos. A ideia chinesa era boa, mas ainda imperfeita, pois esse modo de vacinação por aspiração ainda não mitigava o suficiente o material virótico, custando a vida de quase 1/5 dos vacinados, muito, mas menos da metade da letalidade da doença.

Gradativamente, pessoas residentes no que hoje chamamos de Turquia (na época, Império Otomano), começaram a repetir os procedimentos chineses com resultados parecidos.

Foi quando na Grã-Bretanha, um brilhante cientista e humanista chamado Edward Jenner, versado na medicina prática, ou seja, mais um médico que um cirurgião (naquela época poucos médicos estudavam a prática e poucos cirurgiões estudavam a teoria) ouviu um boato enquanto atendia a comunidade rural inglesa: mulheres que ordenhavam vacas jamais eram acometidas pela versão humana da varíola, que era também a mais grave.

Aquele boato, uma quase fofoca ficou retido na mente de Jenner. Após observar que a varíola matava e mutilava milhares de pessoas todos os anos, Jenner decidiu testar: retirou material de pustulas de ordenhadeiras que tiveram a varíola bovina nas mãos (muito mais fraca que a versão humana) e inoculou tal material em crianças de uma família que já havia perdido muitos doentes para a varíola. Resultado: os pequenos desenvolveram febre baixa e uma versão amena da varíola, mas se tornaram imunes à versão mais maligna.

A sociedade da época recusou parcialmente os resultados e foi necessário que uma parte grande da elite vacinasse os próprios filhos dando o exemplo, para que aos poucos a comunidade abraçasse a ideia. A varíola só foi cem por cento erradicada nos anos 70 do século XX, mas a vacina – estima-se – salvou cerca de 200 milhões de pessoas.

Hoje, como bem pontua Steve Pinker, podemos dizer que a VARÍOLA FOI E NÃO QUE A VARÍOLA É graças a Jenner e voluntários que acreditaram no poder da ciência e do humanismo.

Se estivesse vivo hoje, Jenner certamente estaria alarmado que quase 03 séculos depois progressofóbicos combatam a indústria de imunização, uma das mais seguras e precisas do mundo, a ponto de só poder ser comparada com a aviação. Não, não viraremos jacarés tampouco autistas, mas estamos nos curvando cada vez mais ao fundamentalismo pós-moderno das múltiplas narrativas, onde a história deixa de ser histórica para se tornar mítica e a verdade científica de ser ser um fato aferível para ser um mero ponto de vista nas redes sociais de políticos populistas e seus seguidores inconsequentes.