A polarização política e ideológica é um fenômeno cuja existência dependia da pólvora e uma fagulha. A pólvora sempre existiu, afinal, desde as tribos nômades, os seres humanos foram diferentes. Uma ala era mais conservadora, menos adepta a se aproximar de tribos “estrangeiras”, mais apegada às tradições e defensora da autoridade dos mais velhos. Outra ala sempre foi mais ousada, mais propensa à rupturas e aberta ao desconhecido. A ala conservadora certamente evitou que a tribo inteira se envenenasse com cogumelos coloridos que nunca deveria provar, enquanto a ala progressista certamente permitiu que a tribo domesticasse o fogo cerca de 800.000 anos atrás, domasse feras e se aventurasse fora dos confins conhecidos por gerações.

A ala progressista garantiu a expansão do sapiens enquanto a ala conservadora certamente ajudou na sobrevivência da humanidade. Somos filhos e herdeiros desse balanço tribal e da mescla dos diferentes que se complementam e somam. Mas, com a chegada do iluminismo, alguns pensadores concluíram que seria possível se livrar de uma vez por todas das lentes que turvam a percepção de cada um: deram a isso o nome de ideologia.

Os franceses garantiram que com o uso da razão poderíamos nos libertar da ideologia; Marx jurou que seu pensamento libertaria a humanidade do jugo ideológico porque o socialismo não padeceria desse vício de contaminar o objeto observado com as lentes ideológicas que nos equipam.

Os capitalistas e utilitaristas juraram que dar vazão à liberdade plena seria a única forma de escapar da ideologia e que se isso fosse ainda assim alguma espécie de ideologia, tudo bem, porque seria uma voltada à liberdade. E sugiram os fascistas: para eles, tudo era ideologia, inclusive o pensamento fascista, mas se era para seguir uma ideologia, que fosse a melhor, mais pura e a que dependesse de menos considerações sobre os inimigos.: por que depender tanto da razão se posso usar armas?

E chegamos ao século XXI: como estamos?

Com a queda dos regimes fascistas na Segunda Guerra, com a queda do regime soviético nos anos 80 e 90 do séc. XX e com a ascensão da China nos últimos 20 anos, reembaralhamos as cartas. Está difícil ser apenas fascista, apenas comunista ou apenas capitalista. Não sabemos direito quem somos, tampouco como são os nossos “inimigos”. Antes era fácil: se o sujeito ostentasse uma suástica, era um fascista, se exibisse uma foice, comunista e se defendesse o livre mercado, era um capitalista. Não mais.

E veio a fagulha: a internet.

O rastilho de pólvora foi aceso e com ele, explodimos a possibilidade de diálogos sérios, profundos e que não recorrem a etiquetas. Caímos gostosamente no colo dos demagogos. E lhes garanto: os demagogos agradecem todo santo dia ao inventor dos memes.

Surge o novo modelo de política, forma de governo, representatividade e debate: a MEMECRACIA.

Se antes eu tinha Kennedy, Nixon, De Gaulle, Stallin ou Mao, agora recorro a um meme: o meme fala por mim. E o meme não gosta de debates: o meme gosta de extermínio. Surge o twitter: o twitter é uma rede que não liga para o que o outro diz: não importa a qualidade do argumento mas sim o eco da repercussão. Mandamos o diálogo, o debate e o pensamento reflexivo à câmara de gás.

Na MEMECRACIA, o reducionismo vai ao pódio: quanto mais eu conseguir tornar o outro uma caricatura, melhor.

Surge o #lulalivre, #ForaTemer, #LulaTaPresoBabaca, #ForaBolsonaro #bolsominion, #socialistadeiphone e agora, creio que temos uma nova modalidade no forno: o CAPITALISTA DE XIAOMI.

Com a invenção da escrita pelos sumérios, cerca de 5000 anos atrás, inventamos o pensamento hiper-reflexivo. O sujeito, ao ler, pensa devagar, deglute cada ponderação, rumina as contraditas e avança. Com o tipo de Gutemberg cerca de 600 anos atrás, demos novo salto, ao espalharmos o pensamento hiper-reflexivo a qualquer um disposto a ler.

E com a criação dos memes como forma de debate público, demos imenso passo para atrás, voltando aos primórdios dos tempos pré-históricos, onde como Mcluhan dizia, o pensamento era puramente verbal, rápido, retórico e pouco reflexivo. Na MEMECRACIA, você é representado por adesão: o meme se apresenta e você vota sim ou não, compartilhando-o. Raramente o meme será construtivo: sua ideia não é provar que sua ideia está certa, mas sim, destruir a ideia rival com uma imagem e linguagem simplista.

O meme odeia o debate: ele quer apenas antagonizar e encerrar o assunto.

A memecracia tem especial predileção pelos COMBOS IDEOLÓGICOS: com eles, você pode aderir às ideias de forma integral, resoluta e totalitária. Um verdadeiro fast-food do pensamento.

Para que pensar em cada assunto, item por item? Escolha sua tribo pela qualidade do meme (ou falta de).

Mas se alimentos de fast-food fazem mal à saúde biológica, fast-foods culturais não podem fazer bem ao debate público. Eles entopem as veias da nossa democracia.

Estaremos cultivando uma nova forma de democracia, menos liberal ou estaremos semeando o fim da democracia em algumas décadas?

Eis uma questão para os socialistas de iphone debateram com os capitalistas de xiaomi: mas sem memes, por favor.