Quando se fala que o fascismo dá novamente às caras em nossa sociedade, evidentemente que não se está falando que o fascismo 4.0 seja idêntico ao seu bisavô. O movimento se adaptou, se permitiu modificar algumas marcas e claro, passou a parasitar a democracia ao invés de explicitamente propor destruí-la. O fascismo original se propunha demolir a democracia de fora para dentro, enquanto o risco do fascismo contemporâneo é corroer a democracia de dentro para fora, de modo a manter sua aparente forma, mas torná-la iliberal.

Mas se o fascismo mudou de embalagem e ferramentas, terá seu DNA também sofrido grandes alterações? Não. No essencial, o neofascismo, esse cruzamento do fascismo com o populismo não mudou. Ele continua sendo a perfeita representação mitológica do LEITO DE PROCUSTO. O fascismo não serve ao indivíduo, e sim, o indivíduo que serve ao fascismo. O fascista não tolera a diferença, a diversidade e nenhum traço de elitismo ou qualquer forma de destaque. Justamente por isso, o fascismo é um movimento anticientífico, antiacadêmico, antijornalístico, antiuniversitário, antiartístico e com obsessão pela a igualdade, mas não a igualdade isonômica, e sim, a igualdade daqueles que julga merecedores de serem “iguais”: os da sua etnia, do seu credo, da sua orientação sexual, da sua nacionalidade ou preferência política.

O fascismo não admite discordância, tampouco a pluralidade: não devem haver ideias, mas uma única ideia: a fascista. Justamente por isso, o fascismo não trata a discordância política como uma oportunidade para somar ou transigir. Ao invés de enxergar um diferente, o fascista enxerga um inimigo. E o que seria o LEITO DE PROCUSTO? Na mitologia, Procusto era um homem cruel que colocava suas vítimas em sua cama: se fossem menores que o leito, eram esticadas e distendidas até atingirem o tamanho “correto” e se fossem maiores que a cama, tinham suas pernas amputadas a fim de terem novamente o tamanho “certo”.

No essencial, o fascismo do século XX é igual ao fascismo do século XXI: é ação sem reflexão, é a política do nós versus eles, é a repulsa pela discordância, a intolerância com a pluralidade e a crença de que a força deve se sobrepor à dignidade humana e minoria deve se sujeitar à maioria custe o que custar. Tenebroso, mas real.