Para situações desesperadoras, soluções desesperadas

Ao leitor que acompanhou a primeira coluna, informei que com o lançamento de meu terceiro livro, Fascismo Pandêmico: como uma ideologia de ódio viraliza?, farei breves reflexões em formato de colunas nas próximas semanas. O tema é espinhoso: adversários políticos – sem nenhum amor à precisão de conceitos filosóficos e políticos – têm atirado sobre si epítetos como fascista, comunista entre outros.

No primeiro texto, abordamos como a era contemporânea abusa dos termos comunismo, fascismo etc, de forma que invariavelmente corrompem os conceitos que tais vocábulos representam. A sabedoria popular, contudo, sabe que nenhum cão miará se for chamado de gato. Neste segundo texto, nos propomos a responder: afinal, o fascismo é nacional? E mais, ele morreu com a Segunda Guerra Mundial?

Muitos historiadores defendem que o fascismo é um movimento intransponível para outro tempo e espaço. Assim, o fascismo seria um movimento político italiano que gerou uma versão mais virulenta na Alemanha, mas não poderíamos falar em fascismo universal. O fascismo não poderia, portanto, segundo essa premissa (da qual discordamos) assim criar versões brasileiras, espanholas, americanas ou japonesas. Esta é uma questão perturbadora, porque a despeito de muitos historiadores defenderem essa posição, não é o que a realidade da própria época do surgimento do fascismo mostra.

Inglaterra, Hungria, Rússia, Chile entre outros países registraram a criação de partidos nominalmente fascistas. Nosso Brasil brasileiro foi mais tímido: se denominavam integralistas, mas não nos enganemos: eram fascistas (alguns inclusive, antissemitas). Feito este registro, marco minha posição: penso que o fascismo não está adstrito ao tempo e espaço e é sim um fenômeno universal.

Do mesmo modo que inexiste amor japonês, indígena, brasileiro ou italiano, o ódio também não é um sentimento nacional: qualquer um de nós sabe ou pode odiar. Assim, o fascismo não é maldição específica de um povo, mas é horror que faz parte da condição humana. E para combatê-lo, precisamos entendê-lo, ainda que é claro, jamais tolerá-lo.

O fascismo surge inicialmente no contexto italiano do pós-Primeira Guerra Mundial, quando a guerra para acabar com todas as guerras, não somente não o fez, como ainda legou a humanidade a pandemia da gripe espanhola, gestada em suas trincheiras imundas, causando a morte de mais de 50 milhões de pessoas. O fascismo surge, portanto em meio a uma tríade infernal: crise econômica, xenofobia e crise sanitária (algum paralelo com hoje?).

Em meio a essa situação desesperadora, de parcos recursos materiais, alta competição entre nações, desconfiança purulenta para com os outros, os cidadãos italianos se voltaram a um movimento que se apresentava como forte, decidido, determinado e com soluções simplistas para problemas altamente complexos (novamente, algum paralelo com hoje?)

O movimento fascista propunha soluções que evidentemente implicariam restrições de liberdades, eliminação de dissidências e aplicação institucional de violência como política de Estado. Tratava-se, explicitamente, de um pacote de soluções desesperadas para uma situação desesperadora. E muitas pessoas o compraram. Como sabemos, Benito Mussolini, na década de 20, e Adolf Hitler na década de 30, ambos foram nomeados. A população – em grande parte – abraçou essa solução das fasces (feixe de varas em italiano).

Os resultados a curto prazo enganaram essas populações, que acharam ter encontrado ordem, rigor e progresso, virando às costas para a discriminação, violência e intolerância praticadas aos borbotões. A longo prazo, é fácil hoje julgarmos nossos semelhantes, afinal, o fascismo foi derrotado por uma ampla aliança entre democracias liberais e a potência comunista.

Mas terá mesmo o fascismo morrido com o término da Segunda Grande Guerra?

Será que uma infecção ideológica tão virulenta como o fascismo pode ser erradicada simplesmente com bombardeios em Berlim, o suicídio de Hitler e o enforcamento de Mussolini?

As ideias – segundo o filósofo americano Daniel Dennet – são memes e memes, são pacotes de informação altamente especializados em se replicar. Não é fácil, portanto, erradicar ideias: invariavelmente, elas encontram caminhos para sobreviver, se adaptam e são compartilhadas gerações adiante.

Para Dennet, a seleção natural se aplica até mesmo à cultura, em ponto coincidente com o pensamento do biólogo Edward Wilson. Se tal dinâmica procede, o fascismo pode até ter morrido, mas deixou bisnetos. Talvez, menos estridentes, histriônicos e parlapatões que seus bisavôs, mas ainda assim, curvados ao ideal fascistoide.

Na coluna que vem, examinaremos esses jovens.

Até breve.